
Há um momento sobre o qual pouco se fala quando o assunto é violência doméstica. É o momento em que a mulher consegue sair do relacionamento abusivo.
Muitas pessoas acreditam que ali a história termina. Afinal, o agressor ficou para trás, a medida protetiva foi concedida, uma nova casa foi encontrada ou a separação finalmente aconteceu.
Mas, para inúmeras mulheres, esse é apenas o começo de uma nova batalha. Porque sobreviver à violência não significa, necessariamente, estar bem.
As agressões podem ter cessado, mas o medo permanece. O corpo continua em estado de alerta, o sono não volta a ser o mesmo, a ansiedade surge sem explicação aparente. Há dias em que levantar da cama parece exigir um esforço enorme. Em outros, basta um toque no telefone ou um barulho mais forte para que toda a sensação de insegurança retorne.
São feridas que ninguém consegue enxergar. E é justamente sobre elas que precisamos conversar neste Agosto Lilás.
Ao longo desta série especial, refletimos sobre como a violência pode começar de maneira silenciosa, assumir diferentes formas e ultrapassar os limites da vida familiar, afetando também a vida profissional da mulher. Agora, encerramos essa caminhada falando sobre um tema igualmente importante: o impacto da violência na saúde física e emocional e a importância de reconhecer que cuidar dessas marcas também faz parte do processo de reconstrução.
O trauma não termina quando a violência acaba
Quem nunca viveu uma situação de violência costuma imaginar que, uma vez encerrado o relacionamento abusivo, a vida simplesmente volta ao normal. Infelizmente, o trauma não funciona dessa maneira.
Durante meses ou anos, muitas mulheres convivem com medo constante, ameaças, humilhações e episódios de violência que obrigam o organismo a permanecer em permanente estado de vigilância. O cérebro aprende a identificar riscos em todos os lugares e passa a reagir como se o perigo estivesse sempre presente. Mesmo depois do fim da violência, essa sensação pode continuar.
É por isso que algumas mulheres têm dificuldade para dormir, assustam-se facilmente com barulhos, revivem lembranças dolorosas, evitam determinados lugares ou pessoas, apresentam dificuldade de concentração e experimentam uma sensação constante de insegurança.
Essas reações não representam falta de força, exagero ou incapacidade de seguir em frente. São consequências reconhecidas da exposição prolongada a situações traumáticas e merecem acolhimento, tratamento e respeito.
Quando a dor emocional também adoece o corpo
A violência doméstica não provoca apenas sofrimento psicológico, ela também pode repercutir em todo o organismo.
Dores de cabeça frequentes, alterações do sono, crises de ansiedade, gastrite, dores musculares persistentes, hipertensão, fadiga constante, alterações gastrointestinais e queda da imunidade são algumas das manifestações que podem surgir quando o corpo permanece submetido ao estresse por longos períodos.
Além disso, muitas mulheres desenvolvem depressão, síndrome do pânico ou transtorno de estresse pós-traumático, condições que interferem profundamente na qualidade de vida e exigem acompanhamento especializado.
Nem sempre esses sintomas aparecem durante o relacionamento. Em muitos casos, eles surgem justamente quando a mulher acredita que finalmente está segura e isso acontece porque o organismo, após tanto tempo concentrado em sobreviver, começa a manifestar as consequências físicas e emocionais da violência vivida.
Cuidar da saúde também é um ato de coragem
Durante muito tempo, buscar ajuda psicológica foi visto como sinal de fraqueza. Hoje sabemos exatamente o contrário, reconhecer que a violência deixou marcas e procurar atendimento médico, psicológico ou psiquiátrico é um gesto de coragem e de cuidado consigo mesma.
O tratamento adequado permite compreender o que está acontecendo, aliviar o sofrimento, recuperar a qualidade de vida e reconstruir a autonomia perdida ao longo dos anos de violência.
Mais do que isso, o acompanhamento profissional ajuda a mulher a entender que ela não está “fraca”, “confusa” ou “exagerando”. Ela está lidando com as consequências de um trauma real. E nenhum trauma deve ser enfrentado sozinho.
Quando a violência impede a mulher de trabalhar
Em algumas situações, as consequências da violência tornam-se tão intensas que a mulher já não consegue exercer suas atividades profissionais.
Há dias em que sair de casa parece impossível. A concentração desaparece, as crises de ansiedade surgem durante o expediente e, o medo constante, a insônia e o esgotamento físico e emocional tornam tarefas simples extremamente difíceis.
Nessas circunstâncias, o afastamento do trabalho pode ser necessário para que a mulher tenha condições de realizar o tratamento e recuperar sua saúde. É nesse momento que muitas descobrem que também existe proteção na esfera previdenciária.
Quando uma doença física ou psicológica decorrente da violência provoca incapacidade para o trabalho e estão presentes os requisitos previstos na legislação, a Previdência Social pode assegurar benefícios destinados a garantir proteção durante o período de recuperação.
O benefício por incapacidade temporária — conhecido por muitos como auxílio-doença — é um dos mecanismos existentes para amparar o trabalhador que, por motivo de saúde, fica impossibilitado de exercer suas atividades. Em situações específicas, outras formas de proteção previdenciária também podem ser aplicáveis, sempre conforme as particularidades de cada caso e mediante avaliação pericial.
É importante compreender que o benefício não é concedido simplesmente porque a mulher foi vítima de violência doméstica. O que pode gerar a proteção previdenciária é a incapacidade para o trabalho decorrente das consequências físicas ou psicológicas provocadas por essa violência.
A documentação médica também protege
Ao buscar atendimento, muitas mulheres acreditam que o prontuário, os laudos médicos ou os relatórios psicológicos servem apenas para orientar o tratamento.
Na verdade, esses documentos também registram a história clínica da paciente e demonstram, de forma técnica, a evolução do seu quadro de saúde. Quando há necessidade de afastamento do trabalho, perícia médica ou exercício de direitos previdenciários, essa documentação pode ser extremamente importante.
Mais do que papéis, esses registros contam uma história que, muitas vezes, não deixa marcas visíveis, mas produz profundas consequências na vida da mulher.
Reconstruir também significa cuidar de si
Ao longo desta série especial de Agosto Lilás, falamos sobre os primeiros sinais da violência, mostramos que ela pode assumir diferentes formas e refletimos sobre seus impactos na vida profissional das mulheres.
Encerramos essa caminhada lembrando que algumas das marcas mais profundas não aparecem na pele. Elas permanecem na memória, no corpo, na saúde e, muitas vezes, acompanham a mulher mesmo depois que a violência termina.
Cuidar dessas feridas também faz parte do processo de reconstrução.
Buscar ajuda médica, psicológica, jurídica ou social não significa reviver a dor. Significa escolher não permitir que ela continue definindo o futuro.
Que o Agosto Lilás seja mais do que uma campanha de conscientização. Que seja um convite permanente para ouvir sem julgar, acolher sem preconceitos e compreender que toda mulher merece viver com segurança, dignidade e liberdade.
Porque nenhuma violência deveria deixar marcas para sempre. E nenhuma mulher deveria enfrentar sozinha o caminho da reconstrução.
Você sabia?
Quando uma doença física ou psicológica decorrente da violência doméstica impede temporariamente a mulher de trabalhar, ela poderá ter direito à proteção previdenciária, desde que estejam presentes os requisitos previstos em lei e a incapacidade seja reconhecida por perícia médica do INSS. Cada situação deve ser analisada de forma individualizada.
Fim da Série Especial | Agosto Lilás
A informação é uma das formas mais poderosas de proteção. Esperamos que esta série tenha contribuído para ampliar o conhecimento sobre a violência contra a mulher, fortalecer a rede de acolhimento e incentivar a busca por apoio sempre que necessário.
Combater a violência é uma responsabilidade de toda a sociedade. E reconstruir vidas também passa pelo acesso à informação, ao cuidado e à Justiça.
Saiba mais sobre o Ciclo de Violência no link abaixo:
https://www.institutomariadapenha.org.br/violencia-domestica/ciclo-da-violencia.html
Daniela Coimbra
Advogada trabalhista, especialista em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho, com atuação em gênero, trabalho, saúde e direitos das mulheres. Membro do GPMAT/USP.
