Vício em jogos e apostas: quando a ludopatia vira caso de Justiça, após uma demissão por justa causa

O vício em apostas esportivas e cassinos online já se tornou uma realidade frequente entre trabalhadores brasileiros, sobretudo aqueles que lidam com pressão profissional, metas abusivas e funções financeiras.

A dependência, reconhecida como doença mental, leva ao endividamento, instabilidade emocional e, em muitos casos, à demissão por justa causa — normalmente baseada na alínea “l” do art. 482 da CLT: prática constante de jogos de azar.

Nós, do Coimbra Advogados Associados, com mais de 20 anos de atuação no Direito do Trabalho, orientamos trabalhadores que sofrem com ludopatia e suas repercussões no emprego.

Ludopatia: Um Problema de Saúde Pública em Meio às Apostas Esportivas

A ludopatia, ou transtorno do jogo patológico, é classificada pela OMS como doença mental, caracterizada por:

  • perda de controle sobre o impulso de apostar;
  • prejuízo financeiro grave;
  • impacto direto na vida familiar, emocional e profissional.

Com a regulamentação das apostas de cota fixa pela Lei 14.790/2023, o acesso ampliou: plataformas 24h, celular, pagamentos instantâneos e estímulos contínuos.

Embora a Lei das Apostas regule operadoras, não disciplina impactos trabalhistas, o que aumenta conflitos na Justiça do Trabalho e o crescimento de demissões por justa causa envolvendo apostas. Alguns casos comuns noticiados:

  • uso de sites de apostas durante o expediente;
  • desvio de recursos para apostar;
  • queda de produtividade;
  • faltas, atrasos e isolamento social;
  • dívidas altas que levam a comportamentos arriscados.

Profissões como bancários, vendedores, gerentes e administrativos tendem a ter maior pressão emocional e financeira, intensificando quadros de ansiedade, depressão e culpa, o que afeta diretamente o desempenho.

O que é Ludopatia e Como Afeta o Trabalhador Celetista

O transtorno (CID-11 – F63.0) inclui sintomas como:

  • tolerância à perda (apostas cada vez maiores);
  • abstinência irritável;
  • endividamento crescente;
  • negligência de obrigações laborais;
  • mentiras sobre hábitos.

Exemplos reais que têm aparecido na mídia

  • “Auxiliar flagrado apostando no Jogo do Tigrinho no horário de trabalho”
  • “Vendedor desviando valores de comissão para apostar”
  • “Bancário fazendo sucessivos empréstimos para cobrir dívidas de apostas”

Em muitos desses casos, empresas aplicam demissão por justa causa, aumentando ainda mais a vulnerabilidade financeira e emocional do trabalhador.

CLT e Demissão por Jogos de Azar: O que Diz a Lei

Segundo o art. 482 da CLT, a prática habitual de jogos de azar pode fundamentar uma demissão por justa causa. Contudo, para que essa penalidade seja válida, a empresa deve comprovar:

  • habitualidade;
  • gravidade suficiente para romper a confiança;
  • relação direta com o trabalho;
  • imediatidade da punição;
  • histórico de advertências (progressividade).

Já a reversão de uma justa causa pode ocorrer quando há:

  • ausência de provas;
  • falta de proporcionalidade;
  • inexistência de advertências prévias;
  • comprovação de doença mental (ludopatia) que compromete o autocontrole.

A depender do caso, pode haver:

  • reintegração;
  • pagamento de indenização por danos morais;
  • recebimento integral das verbas rescisórias.

Responsabilidade da Empresa e Doenças Ocupacionais

A empresa tem obrigação legal de zelar pela saúde mental do trabalhador. Algumas leis que você precisa conhecer:

  • NR-17 (ergonomia e saúde mental no trabalho);
  • Art. 200 da CLT;
  • NR-1 (riscos psicossociais);
  • Lei das Apostas – art. 30 (dever de prevenção).

Quando metas abusivas, estresse extremo ou jornadas intensas atuam como fator agravante, a ludopatia pode ser considerada doença ocupacional e isso pode gerar:

  • emissão de CAT;
  • afastamento pelo INSS;
  • estabilidade após retorno;
  • indenizações por danos materiais e morais.

Passo a Passo para se Proteger de uma Justa Causa por Vício em Apostas

  1. Procure atendimento psiquiátrico ou psicológico imediatamente.
  2. Explique ao profissional de saúde o impacto do vício no trabalho.
  3. Solicite relatório médico, essencial para comprovação da doença.
  4. Não aposte no local de trabalho. As plataformas são obrigadas a bloquear o cadastro mediante solicitação.
  5. Documente tudo: metas, cobranças, e-mails, extratos de apostas e dívidas.
  6. Registre queixas no RH e solicite apoio.
  7. Se houver demissão por justa causa, contate um advogado trabalhista imediatamente.

Coimbra Advogados: Especialistas em Defesa dos seus Direitos Trabalhistas

Com mais de duas décadas de experiência, atuamos em ações envolvendo:

  • reversão de demissão por justa causa;
  • nulidade da dispensa e pagamento total das verbas rescisórias;
  • saque do FGTS e seguro-desemprego;
  • indenização por danos morais;
  • afastamentos por incapacidade mental no INSS;
  • ações para restituição de valores em apostas;
  • garantia de tratamento médico adequado.

Não espere chegar à justa causa. Busque orientação especializada e reconstrua sua vida profissional com segurança jurídica.


Daniela Coimbra
Advogada trabalhista, especialista em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho, com atuação em gênero, trabalho, saúde e direitos das mulheres. Membro do GPMAT/USP.