
“Ele nunca me bateu.” é uma das frases mais ouvidas quando uma mulher tenta explicar o relacionamento que vive. Ela costuma vir acompanhada de outras.
- “Ele só não gosta que eu saia com minhas amigas.”
- “Ele prefere administrar o dinheiro da casa.”
- “Ele fica bravo quando converso com outros homens, mas é porque tem ciúme.”
- “Às vezes ele me chama de burra, mas depois pede desculpas.”
- “Ele diz que faz isso porque me ama.”
Quem escuta essas histórias pode pensar que se trata apenas de conflitos comuns da vida a dois. A própria mulher, muitas vezes, também acredita nisso. Mas será que é mesmo?
É justamente para responder perguntas como essa que existe o Agosto Lilás, campanha nacional de conscientização sobre a violência contra a mulher. Mais do que divulgar a Lei Maria da Penha, a campanha busca mostrar que a violência doméstica nem sempre deixa marcas no corpo. Em muitos casos, ela se manifesta por meio do controle, da humilhação, do medo e da perda gradual da liberdade.
Reconhecer essas situações é um dos primeiros passos para interromper um ciclo que, muitas vezes, começa de forma silenciosa.
Quando o amor passa a controlar
Relacionamentos saudáveis são construídos sobre confiança, respeito e liberdade, por isso, é necessário estar atento se o carinho dá lugar ao controle. Vale a pena refletir quando uma mulher:
- Deixa de vestir determinada roupa para evitar uma discussão.
- Para de visitar a família porque isso sempre gera brigas.
- Sente necessidade de apagar mensagens antes que o parceiro veja.
- Deixa de expressar sua opinião por medo da reação dele.
- Passa a pedir autorização para fazer coisas que antes decidia sozinha.
Essas mudanças costumam acontecer aos poucos. Tão lentamente que, muitas vezes, passam despercebidas até pela própria vítima. O problema é que controlar não é cuidar. Limitar não é proteger. E o medo nunca pode ser confundido com respeito.
A violência tem muitas formas
Um dos maiores avanços trazidos pela Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) foi reconhecer que a violência contra a mulher vai muito além da agressão física. Ela pode aparecer de maneiras diferentes, muitas vezes ao mesmo tempo.
Há mulheres que vivem sob constantes humilhações. O companheiro faz piadas sobre sua aparência, ridiculariza seus sonhos, diz que ela é incapaz ou repete diariamente que ninguém mais irá amá-la. Depois, afirma que “era apenas uma brincadeira”.
Outras deixam de trabalhar porque o parceiro acredita que a mulher deve permanecer em casa. Algumas entregam todo o salário ao companheiro e precisam pedir dinheiro até para comprar itens de higiene pessoal. Há aquelas que descobrem empréstimos feitos em seu nome, documentos escondidos ou bens vendidos sem sua autorização.
Existem ainda mulheres que são pressionadas a manter relações sexuais quando não desejam, impedidas de utilizar métodos contraceptivos ou constrangidas a engravidar contra sua vontade.
Em muitos relacionamentos, todas essas situações acontecem antes mesmo da primeira agressão física.
É por isso que a Lei Maria da Penha reconhece cinco formas de violência: física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. Elas podem ocorrer isoladamente, mas é muito comum que estejam interligadas, formando uma rede de controle sobre a vida da vítima.
“Isso já aconteceu com você?”
Leia as situações abaixo sem pressa:
- Você já deixou de usar uma roupa porque sabia que isso provocaria uma discussão?
- Já evitou encontrar amigos ou familiares para não desagradar seu companheiro?
- Já ouviu que você é exagerada, louca ou incapaz?
- Já precisou explicar onde estava, com quem conversava ou por que demorou alguns minutos para responder uma mensagem?
- Já teve medo da reação dele diante de uma opinião diferente da sua?
- Já deixou de fazer algo que gostava apenas para evitar conflitos?
Talvez nenhuma dessas situações tenha deixado um hematoma, mas todas podem deixar marcas profundas na autoestima, na autonomia e na liberdade de uma mulher.
Às vezes, o abuso não aparece na pele, mas na maneira como a vítima deixa de ser quem era.
Por que tantas mulheres demoram para perceber?
Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes.
O relacionamento abusivo raramente começa pela violência física, na maioria das vezes, o agressor alterna momentos de carinho com atitudes de controle. Depois de uma discussão, pede desculpas. Promete mudar. Faz declarações de amor. Diz que tudo aconteceu porque estava nervoso.
A mulher acredita. Quer acreditar. E é justamente essa alternância entre afeto e violência que dificulta o reconhecimento do abuso.
Com o passar do tempo, ela começa a duvidar da própria percepção, acredita que exagerou, sente culpa pelas discussões e tenta mudar seu comportamento para evitar novos conflitos.
Quando percebe a gravidade da situação, muitas vezes já está emocionalmente fragilizada e isolada.
O problema não é apenas jurídico. É humano.
Quando falamos sobre violência contra a mulher, não estamos tratando apenas de leis ou processos judiciais, estamos falando de vidas interrompidas, sonhos abandonados, autoestima destruída e liberdade perdida.
É por isso que campanhas como o Agosto Lilás são tão importantes.
Informar permite que mais mulheres reconheçam situações abusivas antes que a violência se torne ainda mais grave. Também ajuda familiares, amigos, colegas de trabalho e profissionais da saúde a compreenderem que frases como “isso é ciúme”, “ele faz isso porque ama” ou “é apenas o jeito dele” podem esconder uma realidade muito diferente.
Dar nome à violência é o primeiro passo para enfrentá-la
Talvez você tenha chegado até este artigo pensando em si mesma. Talvez tenha lembrado de uma irmã, uma amiga, uma colega de trabalho ou uma vizinha.
Independentemente de quem veio à sua memória, há uma mensagem importante neste Agosto Lilás: violência não é apenas aquilo que deixa hematomas, ela está presente quando uma mulher perde, pouco a pouco, a liberdade de ser quem é.
Conhecer as diferentes formas de violência previstas na Lei Maria da Penha não serve apenas para identificar um problema jurídico, mas para reconhecer uma realidade que muitas vezes permanece escondida dentro de casa.
E o primeiro passo para romper o silêncio é justamente dar nome ao que está acontecendo.
Você sabia?
A Lei Maria da Penha protege a mulher contra cinco formas de violência: física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. Nenhuma delas precisa ocorrer isoladamente, e todas merecem atenção, acolhimento e proteção.
No próximo artigo da nossa série especial de Agosto Lilás, vamos mostrar como a violência doméstica pode ultrapassar os limites da vida familiar e afetar também a vida profissional da mulher, analisando uma recente decisão da Justiça do Trabalho que reconheceu as consequências da violência doméstica no vínculo de emprego.
Daniela Coimbra
Advogada trabalhista, especialista em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho, com atuação em gênero, trabalho, saúde e direitos das mulheres. Membro do GPMAT/USP.
