
Todos os anos, o mês de agosto convida a sociedade brasileira a olhar com mais atenção para uma realidade que ainda faz parte da vida de milhões de mulheres: a violência doméstica e familiar. Conhecida como Agosto Lilás, a campanha tem como objetivo conscientizar a população sobre as diferentes formas de violência contra a mulher, divulgar os direitos assegurados pela Lei Maria da Penha e fortalecer a rede de proteção e acolhimento às vítimas.
A campanha foi criada em referência ao mês de sanção da Lei nº 11.340/2006 (Lei Maria da Penha), um dos mais importantes instrumentos de proteção dos direitos das mulheres no Brasil. Mais do que lembrar uma legislação, o Agosto Lilás representa um convite para que toda a sociedade reflita sobre seu papel no enfrentamento da violência, rompendo o silêncio, combatendo preconceitos e incentivando a informação como forma de prevenção.
Infelizmente, a violência contra a mulher continua sendo uma realidade alarmante. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública revelam que milhares de mulheres são vítimas de violência doméstica todos os anos, muitas delas dentro da própria casa e praticada por pessoas com quem mantêm ou mantiveram vínculo afetivo.
Entretanto, existe um aspecto que ainda recebe pouca atenção: a violência quase nunca começa com uma agressão física. Na maioria dos casos, ela se instala de forma lenta, silenciosa e progressiva. O que inicialmente pode parecer excesso de cuidado, ciúme ou preocupação transforma-se, aos poucos, em controle, manipulação, medo e perda da autonomia.
É justamente por isso que aprender a reconhecer os primeiros sinais pode fazer toda a diferença.
A violência não surge de um dia para o outro
Quando pensamos em violência doméstica, é comum imaginarmos socos, empurrões ou lesões físicas. No entanto, esses episódios costumam representar apenas a fase mais visível de um processo que, muitas vezes, começou meses ou até anos antes.
O relacionamento abusivo normalmente se desenvolve de maneira gradual. Tudo pode começar com frases aparentemente inofensivas como:
- “Essa roupa está muito curta.”
- “Não gosto daquela sua amiga.”
- “Você vai sair sem mim de novo?”
- “Me passa a senha do seu celular. Quem não deve, não teme.”
Em um primeiro momento, essas atitudes podem ser interpretadas como demonstrações de amor ou proteção. Aos poucos, porém, elas tornam-se mais frequentes, mais intensas e passam a limitar a liberdade, a autoestima e a independência da mulher.
Quando a violência física acontece, geralmente já existe um histórico de controle emocional, isolamento e manipulação.
Por que é tão difícil perceber que a violência começou?
Essa é uma pergunta importante, afinal muitas pessoas acreditam que seria fácil identificar um relacionamento abusivo. Na prática, porém, a realidade costuma ser muito diferente.
O agressor raramente demonstra seu comportamento violento logo no início da relação. É comum alternar momentos de carinho, afeto e demonstrações de arrependimento com episódios de controle e agressividade. Além disso, muitas mulheres passam a ouvir frases como:
- “Você está exagerando.”
- “Isso é coisa da sua cabeça.”
- “Você me provoca.”
- “Se eu tenho ciúme é porque amo você.”
Com o tempo, essas mensagens podem fazer a vítima questionar sua própria percepção da realidade, sentir-se culpada pelos conflitos e acreditar que o comportamento do parceiro é normal ou que mudará com o passar do tempo.
É justamente essa dinâmica que torna o reconhecimento da violência tão difícil.
O Violentômetro: uma ferramenta para enxergar o que muitas vezes passa despercebido
Para ajudar mulheres a identificar comportamentos abusivos, foi criado o Violentômetro, uma ferramenta educativa que demonstra que a violência possui diferentes níveis de gravidade e que todos merecem atenção. Seu principal objetivo é mostrar que o abuso não começa na agressão física.
Entre os primeiros sinais estão comportamentos como:
- controlar as roupas que a mulher veste;
- monitorar mensagens, redes sociais e ligações;
- fazer críticas constantes à aparência ou à capacidade da parceira;
- afastá-la de amigos e familiares;
- demonstrar ciúme excessivo;
- desvalorizar suas opiniões;
- controlar o dinheiro ou impedir que trabalhe.
À medida que a violência evolui, podem surgir ameaças, humilhações públicas, destruição de objetos, empurrões, agressões físicas, violência sexual e situações que colocam em risco a própria vida da vítima.
Nenhuma dessas atitudes deve ser considerada normal dentro de um relacionamento.
O ciclo da violência: por que muitas mulheres permanecem na relação?
Outro conceito fundamental para compreender a violência doméstica é o chamado ciclo da violência, identificado em inúmeros relacionamentos abusivos. Ele costuma se repetir em três fases.
1. Acúmulo de tensão:
- As discussões tornam-se frequentes.
- O agressor controla, critica, humilha e cria um ambiente de constante insegurança.
- A mulher passa a medir palavras, evitar conflitos e modificar seu comportamento para impedir novas brigas.
2. Explosão
É quando ocorre a violência propriamente dita, que pode ser física, psicológica, sexual, moral ou patrimonial. Cada episódio costuma ser mais intenso que o anterior.
3. Lua de mel
Depois da agressão, surgem os pedidos de desculpas.
O agressor promete mudar, demonstra arrependimento, faz declarações de amor, oferece presentes e convence a vítima de que aquela situação jamais voltará a acontecer. É justamente essa fase que faz muitas mulheres acreditarem que o relacionamento pode voltar a ser como era no início.
Infelizmente, sem ajuda e sem intervenção, o ciclo tende a se repetir, normalmente com episódios cada vez mais graves.
Dez sinais de alerta que merecem atenção
Nem sempre é fácil perceber que um relacionamento está se tornando abusivo. Alguns comportamentos, porém, acendem um importante sinal de alerta:
- controla a forma como você se veste;
- exige acesso ao seu celular e às suas redes sociais;
- demonstra ciúme de amigos, familiares ou colegas de trabalho;
- tenta afastá-la das pessoas que você ama;
- faz críticas constantes ou humilha você em público;
- controla seu dinheiro ou impede que trabalhe;
- culpa você pelos próprios comportamentos agressivos;
- faz com que você se sinta culpada o tempo todo;
- diz que ninguém mais irá amar você;
- pede desculpas, promete mudar e depois repete tudo novamente.
Se esses comportamentos fazem parte da rotina de um relacionamento, é importante refletir e buscar orientação.
“Mas por que ela não vai embora?”
Talvez essa seja uma das perguntas mais injustas feitas às vítimas de violência, pois, quem observa a situação de fora nem sempre conhece a complexidade envolvida.
Muitas mulheres permanecem no relacionamento por medo, dependência financeira, preocupação com os filhos, vergonha, isolamento social, baixa autoestima ou porque acreditam, sinceramente, que o agressor irá mudar. Outras têm receio de que a violência aumente caso tentem romper a relação.
Por isso, antes de julgar, é preciso compreender.
Como ajudar outra mulher sem julgamentos
O Agosto Lilás também nos convida a refletir sobre o papel de cada um de nós.
Talvez uma amiga, uma colega de trabalho, uma vizinha ou um familiar esteja vivendo uma situação de violência sem conseguir pedir ajuda. Nesses momentos, acolher é muito mais importante do que julgar.
Evite frases como:
- “Eu avisei.”
- “Se fosse comigo, eu já teria ido embora.”
- “Você continua porque quer.”
Essas palavras apenas aumentam a culpa e o isolamento. Em vez disso:
- Ofereça escuta, acolhimento e respeito.
- Demonstre que ela pode contar com você.
- Acredite no relato.
- Respeite seu tempo.
- Incentive, quando possível, a busca por apoio na rede de proteção e por orientação jurídica e psicológica.
Muitas vezes, saber que existe alguém disposto a ouvir sem críticas é o primeiro passo para romper o silêncio.
Informação também protege
O Agosto Lilás nos lembra que combater a violência contra a mulher não é responsabilidade apenas das autoridades ou das vítimas. É um compromisso de toda a sociedade.
Informar é proteger.
Reconhecer os primeiros sinais de um relacionamento abusivo pode impedir que a violência evolua. Da mesma forma, acolher uma mulher sem julgamentos pode representar o apoio que ela precisava para reconstruir sua vida.
Se este artigo fez você pensar em alguém, compartilhe. Uma informação confiável, lida no momento certo, pode ser o início de uma mudança que parecia impossível.
Você sabia?
A Lei Maria da Penha reconhece cinco formas de violência contra a mulher: física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. Muitas delas não deixam marcas visíveis no corpo, mas podem causar profundas consequências emocionais, familiares, sociais e financeiras.
No próximo artigo da nossa série especial de Agosto Lilás, vamos explicar cada uma dessas formas de violência, mostrando exemplos do dia a dia que ajudam a identificar comportamentos abusivos muitas vezes naturalizados pela sociedade.
Conheça mais sobre o Violentômetro no link abaixo:
https://drive.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/upload/direitos_humanos/Violentometro%20-%20Portugues%20-%20CRAI_compressed.pdf
Daniela Coimbra
Advogada trabalhista, especialista em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho, com atuação em gênero, trabalho, saúde e direitos das mulheres. Membro do GPMAT/USP.
